A conversa que eu estava adiando

Era uma sexta-feira de março de 2025. Eu tinha 24 anos e era CFO da Sanfarma há pouco mais de um ano. Meu pai, Luciano, tinha fundado a empresa duas décadas antes e ainda era o CEO.

Eu vinha evitando essa conversa há meses. Mas naquele dia, sentamos na sala dele e eu falei:

"Pai, a gente precisa decidir quem vai liderar a Sanfarma nos próximos 10 anos. E o que a gente vai fazer com a tecnologia."

O diagnóstico

Durante o primeiro ano como CFO, eu tinha documentado silenciosamente tudo que estava quebrado:

  • O fechamento mensal durava 12 dias
  • Não existia conciliação bancária automatizada
  • O time comercial operava no instinto, sem dado
  • O ERP era uma caixa-preta que ninguém entendia completamente
  • A empresa dependia de 4 pessoas que, se saíssem, levavam o conhecimento embora

Eu apresentei isso para ele. Não como crítica — como diagnóstico. "Isso aqui é o que eu encontrei. Isso aqui é o que eu quero consertar. E isso aqui é o investimento que eu preciso."

O momento da virada

Ele me olhou e disse uma frase que eu nunca esqueci:

"Guilherme, eu construí essa empresa com telefone e calculadora. Se você diz que consegue fazer melhor com código, eu confio em você. Mas não me tira do loop."

Essa última frase foi a chave. Ele não estava pedindo para aprovar cada commit. Ele estava pedindo para entender o que estava acontecendo. E eu percebi que meu trabalho não era só automatizar — era traduzir.

O que construímos juntos

Nos 12 meses seguintes, implementamos:

  • Conciliação bancária automatizada (3 bancos)
  • Apuração tributária em Python
  • Inteligência comercial com ML
  • Portal de devoluções
  • Dashboards de gestão no Telegram

Mas a transformação mais importante não foi técnica. Foi de confiança. Meu pai passou a me procurar para perguntar sobre decisões, não para aprovar decisões. A dinâmica mudou de "pai e filho" para "fundador e sucessor" — e, eventualmente, para "parceiros".

O que aprendi sobre sucessão

Sucessão em empresa familiar não é sobre passar o bastão. É sobre construir uma segunda ponte enquanto a primeira ainda está em uso.

Algumas lições:

  • Nunca critique o legado. O que você chama de "arcaico" foi o que manteve a empresa viva por 20 anos. Respeite antes de propor mudança.
  • Traduza, não imponha. Meu pai não precisava entender Docker. Ele precisava entender que o fechamento ia cair de 12 para 3 dias.
  • Mantenha o fundador no loop. Não é sobre aprovação. É sobre pertencimento. Quem construiu a empresa merece ver para onde ela está indo.
  • Resultados falam mais que apresentações. Eu não convenci ninguém com slides. Convenci com um script que rodou sozinho e entregou a conciliação pronta na manhã seguinte.

O futuro

Hoje estou sendo preparado para assumir como CEO. Meu pai continua no conselho. A transição não é um evento — é um processo que já está em andamento há 2 anos.

E aquela conversa de março de 2025? Foi o dia em que eu parei de ser "o filho do Luciano" e comecei a ser "o Guilherme que vai liderar a Sanfarma".